Estou indignado e envergonhado: no Centro de Estudos Africanos, em plena Universidade Eduardo Mondlane, um painel de Malangatana Valente Ngwenya foi ultrajado, vituperado. Parece surreal: um tubo de canalização atravessa o mural do grande Mestre. Como é possível praticar-se semelhante crime? Ninguém viu nada? Num lugar frequentado por professores e estudantes universitários, ninguém se apercebeu de tamanha barbárie? Viram e ficaram todos calados? Provavelmente, o canalizador, ou quem teve a inditosa ideia, não sabe quem é Malangatana, nem tem a mínima ideia da sua relevância. Provavelmente, quem o fez é vítima da falta que a cultura faz no nosso ensino, da falta e ausência de verdadeira cidadania, num país onde, quando se fala de cultura, se confunde com o folclore e a sua desinência política. Dou de barato. Mas e todos os outros frequentadores daquele espaço não se aperceberam daquela alarvidade? Isto é preocupante. O silêncio e a passividade com que se assistiu e com que assistimos a actos tão inconcebíveis como este são inconcebíveis e indiscerníveis.

Aprendi com o tempo a ser menos irascível e mais desapaixonado nas opiniões. Ou simplesmente a não emiti-las. Mas silêncio perante isto é cumplicidade. Por isso, manifesto aqui a minha sedição. Não é impossível qualquer fleuma e não consigo conter a minha cólera: que país é este? Onde é que nós estamos? Seremos assim tão ignobilmente desavisados, impreparados, incultos? Como é possível algo assim acontecer numa universidade? Isto é demais! Isto é bastante grave! Isto é bastante feio! Isto é absolutamente indigno!

Malangatana Valente Ngwenya (1936-2011) é um nome que não discute. O seu génio, a sua importância, a sua relevância. Poeta, cantor, pintor, escultor. Um dos grandes intérpretes da moçambicanidade. Um dia ele disse: pinto ódio, feitiço, crime, angústia, paixão pela vida e pela poesia. Foi e é um nome audaz, um nome vigoroso, um nome soberbo. Aqui, lá fora. Homem de estatura universal. Onde devia ser valorizado, onde a sua obra devia ser estudada e protegida, é onde se vitupera o seu nome e a sua obra.

Este não é o único painel que Malangatana nos legatou. O painel do Centro de Desenvolvimento Sanitário, no Benfica, é um bom marco para fazer um roteiro pela cidade dos murais de Malangatana. Foi executado em 1985. Não é o mais antigo. Na vetusta sede do Banco de Moçambique há um painel de 1964. O mural não foi pintado directamente sobre a parede, mas em painéis de unitex e depois fixado. Foi para o então BNU. Num outro banco, o Barclays, no extremo da 24 de Julho, há um trabalho com 50 anos. Na Avenida do Trabalho, na Igreja Anglicana, na LAM, no bairro do Aeroporto, encontramos trabalhos do género do Mestre.

A Polana, a Ponta Vermelha e a Sommerschield não estão incólumes ao génio de Malangatana. A Presidência tem um mural, o Museu de História Natural tem também um mural, iniciado em 1977 e terminado em 1979. Em 1978 o pintor permaneceu em Nampula e isso explica o interregno. A Casa Velha, na Avenida Patrice Lumumba, também foi eternizada nas suas paredes com a arte de Malangatana.

À entrada da Faculdade de Medicina encontramos um mural importante de Malangatana: seringas, pessoas com ligaduras, corações – alusão indeclinável ao domínio da medicina. Mais adiante, o Palácio dos Casamentos, um painel que Eduardo White, outro criador indubitavelmente genial, chama-lhe “um milagre”: “Um sopro táctil para o amor. Uma rosa abrindo-se”, escreve a propósito o poeta de Amar sobre o Índico.

No edifício do Centro de Formação das TDM, ou onde está sediada a UNICEF, na Avenida do Zimbabwe, encontramo-nos perante a espantosa arte do Mestre. Este vilipendiado painel do Centro de Estudos Africanos, executado entre 1998 e 1999, seria para assinalar os 30 anos do assassinato de Eduardo Mondlane, o patrono da universidade. Ali foi assassinada Ruth First, em 1982, importante activista anti-apartheid, companheira de Joe Slovo, outro nome jubiloso da mesma luta.

Perante esta ultrajante imagem, perante este vitupério, perante este insulto ao Mestre, sou incapaz de redigir estas palavras de forma desapaixonada. Isto revela algo de grave. Muito mais grave do que a irresponsabilidade de um incauto canalizador. Vivemos um tempo em que o sucesso material tem concitado o entusiasmo de quem ignora a cultura. Por outro lado, não se fala nem se ensina sobre os nossos artistas. Lá fora, os miúdos vão aos museus ver as obras que estudaram na escola. Aqui existe um real desprezo pela cultura. A cultura – ou melhor, o folclore – serve para abrir comícios. Para muitos, cultura é apenas quando se levanta poeira. Dançar e cantar. Não existem outras manifestações culturais.

Perante isto e para além das cólicas e náuseas que isto me provoca, ouso dizer duas coisas: a universidade que se retrate e que promova, o mais breve possível, o restauro e valorização daquela obra. E que promova o conhecimento não só deste mural como de tantos outros. Citei alguns do Mestre para advertir os néscios.

O silêncio perante esta rudeza, perante esta incultura, perante esta boçalidade, é um silêncio cúmplice – disse-o. Pior do que isso, será permanecer-se perante a incúria, a indignidade, a indiscernibilidade, a ignorância, a indigência, a miséria, a sordidez, eu sei lá!… que aquele acto ignominioso representa. Não só para o Malangatana, mas para um país que não se pode reconhecer naquele tubo de canalização estuprando assim o património comum. Nós não merecemos semelhante opróbrio.

Fonte: O País