O Sociólogo, Hélder Jauana, considera que o Presidente da República, Filipe Nyusi, colocou a fasquia muito alto, na tomada de posse, a 15 de Janeiro de 2015, ao se comprometer a resgatar a paz e a recuperar a economia nacional.

Convidado a fazer uma leitura à volta dos três anos da governação de Filipe Nyusi, o académico assume que “não estaríamos a fazer uma análise séria e coerente se na abordagem não olhássemos primeiro para aquilo que foi o compromisso perante os eleitores”.

Disse ser necessário fazer o enquadramento destes desafios dentro do partido e, acima de tudo, olhar para o seu discurso de investidura que marca, claramente, o percurso dos cinco anos de mandato e lança desafios para as áreas política, económica e na agricultura, de modo particular.

“Trata-se de um discurso que tocou a todos os moçambicanos e, na altura, eu dizia que o Presidente colocou a fasquia muito alto e é preciso ter presente que para além de criar tanta expectativa teve o revés de a comunidade internacional retirar o apoio. A paz é outra fasquia alta sobre a qual o Presidente tem-se batido muito e estamos a notar que a cada momento as partes têm usado mais a força argumentativa e não das armas.

No campo da agricultura houve a questão climática negativa, mas logo a seguir tivemos, no ano passado, a redução das bolsas de fome devido à resposta positiva à mobilização do Chefe do Estado para a necessidade de se produzir e se reduzir as importações”, disse Jauana, destacando o cometimento do Governo de Filipe Nyusi na alocação de meios, sementes e outros insumos que dinamizaram a agricultura.

O nosso entrevistado considera que apesar de ter sido alcançado sucesso na campanha agrária 2016/2017, o que aliás poderá repetir-se este ano, há um outro desafio em relação aos acordos que Moçambique assinou sobre a percentagem do Orçamento do Estado que deve ser alocado à agricultura.

Considera ser necessário tornar a agricultura a base ou uma das bases de desenvolvimento de Moçambique, o que só pode acontecer se os “novos ricos” olharem para esta área e não se preocuparem apenas com a área mineira, do pescado ou do gás e petróleo.

“Estes ricos estão envolvidos apenas em negócios de fácil retorno, mas é preciso desafiá-los a investir na agricultura porque a riqueza é algo que se constrói ao longo de muitos anos e não em acções imediatistas. Se os emergentes não interiorizarem que só produzindo e comercializando internamente, as pessoas vão continuar a atravessar para Nelspruit para comprar laranja, repolho e alface”, defende Jauana, para quem o Governo já deu um grande passo com o lançamento do sistema de criação de centros de máquinas.

Contudo, Hélder Jauana critica a forma como esta política está a ser implementada, defendendo que para o sucesso do programa é preciso haver, primeiro, acções de educação sobre vantagens e a necessidade de suportar os custos destas máquinas.

Mesmo assim, é de opinião que não se deve olhar para esta acção como mecanização da agricultura, pois este é um facto mais complexo do que colocar máquinas, mas concorda ser um primeiro passo e toma como exemplo o programa SUSTENTA, que veio para potenciar os pequenos produtores e ajuda-los a transformar a maneira de produzir

Paz e corrupção são desafios do momento

Para Jauana pode se esperar muito do Presidente Nyusi em relação aos aspectos da conquista da paz e combate à corrupção, porque enquanto candidato colocou muito bem as suas ideias e de forma inteligente.

“O primeiro grande desafio no tempo que resta é o restabelecimento da paz e neste momento o Chefe do Estado está a fazer aquilo que em política se diz trabalho de bastidores muito forte e, a curto ou médio prazo, teremos uma paz efectiva. O outro desafio é o Presidente conseguir um cometimento de todos os moçambicanos, em particular os políticos, para que haja um pacto de regime ou pacto de sociedade para o combate à corrupção. Se conseguisse que antes do fim do mandato houvesse uma ideia muito bem discutida na sociedade sobre a corrupção, seria bom. No meu ponto de vista, deve haver uma reflexão para colocarmos um travão a este mal e definir que a partir daqui o Estado moçambicano vai ser intolerante para quem tirar os bens públicos”, disse o nosso entrevistado.

Acrescentou que deve-se definir prazos, despenalizar aqueles que tiveram enriquecimento ilícito e desafiá-los a desenvolver actividades na agricultura e indústria que ofereçam emprego aos jovens.

Relativamente à governação, a fonte é de opinião que seria importante fazer pactos e rupturas necessárias para que o Governo funcione perfeitamente.

“O Presidente pode fazer pacto com aqueles que não o apoiaram no princípio ou fazer ruptura com aqueles que estiveram do seu lado se isso significar ganhos para a governação e o bem servir aos cidadãos”, defende.

Sobre as remodelações governamentais, o nosso entrevistado entende que este é um aspecto que as pessoas se apegam para atacar o Presidente, mas tratou de recordar que o Chefe do Estado é quem escolhe as pessoas que o acompanham.

“Esta situação tem a ver como os partidos funcionam porque se nós alimentarmos num grupo de jovens a ideia de não se empenhar no saber fazer, dar de si no desenvolvimento do país e transformarmos estes jovens em meros mobilizadores políticos, vão criar a esperança de serem nomeados como administradores, governadores ou ministros e quando isso não acontece tornam-se rebeldes e frustrados”, anotou Jauana, para quem um indivíduo deve valorizar-se pela sua carreira profissional e do que sabe fazer, do que deve colocar ao serviço deste partido sob o ponto de vista ideológico, e não necessariamente pelos cargos.

Infelizmente, segundo a fonte, há muita juventude que está amarrada a estes cargos e promove assassinato de carácter para reduzir, no máximo, o potencial de pessoas muito competentes como políticos ou técnicos que podem ser nomeadas, o que deixa a perder o país porque não produz pensamento e visão.

“Em qualquer parte do mundo a juventude de um partido é irreverente. É preciso ter sempre gente que questiona e admiro adultos que são eternos irreverentes mas, infelizmente, há jovens que quando falam pode ter vontade de mudar de estação”, lamenta e recorda que a irreverência não significa estar contra, mas sim debate de ideias.

DIPLOMACIA ECONÓMICA

Hélder Jauana é de opinião que esta é altura de pôr em prática as ideias do Presidente Nyusi de uma diplomacia mais virada para alavancar a economia. Considera que as nomeações têm a ver com as opções do Presidente.

No caso do Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, José Pacheco, que está a ser criticado, Jauana entende que a contestação tem origem dentro do próprio ministério por indivíduos que acham que só um diplomata deve estar à frente da instituição.

“Esquecem que o ministro é um político e não precisa ser, necessariamente, um diplomata e o mais importante é que os diplomatas de carreira não percam tempo em combater o ministro e, pelo contrário, devem apoiá-lo. Pacheco é um indivíduo de negociação e se os diplomatas colocarem todo o seu saber no seu apoio vai brilhar e poderá ir ao encontro daquilo que é o desafio do Presidente que é resgatar os parceiros de cooperação. Isto passa por todos os embaixadores trabalharem com os países para recuperar amigos e ganhar outros”, disse a fonte que defende maior abertura do país em relação aos parceiros, pois nas relações internacionais há convergência de pontos de força e de interesses.