Se pudesse viajar no tempo, recuava “para não magoar aqueles que mais me amavam”. Mas não vivemos como nos filmes onde uma máquina do tempo poderia levar Hortência para 2008, quando decidiu morrer por amor e acabou matando aqueles que mais amava.

Pelas 19H00 de um dia e mês que já não guarda na memória, Hortência Maria andava melancólica. Pensava sem parar naquilo que o destino tinha transformado sua vida. Ela vivia maritalmente com o seu parceiro que conhecera no ano 2000, pouco depois de chegar à cidade de Maputo, vinda da Inhambane, sua terra natal, em busca de melhores condições de vida.

Com o parceiro teve três filhos. De seis (uma menina), três e de um ano e dois meses. O problema é que o “casamento” já era sucessivamente marcado por discussões, porque o marido tinha arranjado uma segunda esposa e levou-a para viver na casa em que os dois construíram.

Naquela noite, atingiu o extremo e fez o que nunca imaginara fazer. Trancou-se no quarto com os três filhos e deitou fogo. “Pensava muita coisa, porque estava cansada de tudo que eu vivia. Decidi que tinha que morrer com os meus filhos, porque o que ele estava a fazer eu não estava a gostar. Então meti petróleo no quarto em que eu estava a dormir com as crianças e acendi”, lembra.

Mas o resultado não foi o previsto. Os filhos de três e um ano e meio morreram, ela e a filha de seis anos sobreviveram. Hortência tinha cometido um crime por motivos passionais.

“Lembro-me que acordei internada no Hospital Central de Maputo, uma semana depois. Estive internada durante 30 dias e quando tive alta voltei para casa do meu companheiro. Dois dias depois, a Polícia veio me prender. Fui julgada e condenada a 12 anos de pena prisão maior”, contou.

Hortência diz que o amor que sentia pelo companheiro é que a fez perder o controlo da situação e agisse sem pensar.

De 2008 para cá, passam nove anos, o mesmo tempo que ela já cumpriu na Cadeia Feminina de Dlhavela, ao lado de tantas mulheres condenadas por outros crimes. Do mundo exterior sabe pouco, apenas o que acompanha pela televisão. “Sei que muita coisa mudou. No telejornal dizem sempre que há crise e que o custo de vida está cada vez mais alto”, exemplificou.

A última vez que viu a filha que sobreviveu foi em Fevereiro de 2016. Sente dor por não estar perto dela e saudades de ser chamada de mãe. “Eu espero que ela também entenda a minha situação e me perdoe, porque na vida coisas como essas acontecem”, diz pensando na menina que hoje tem 14 anos. Faltam quatro anos para Hortência cumprir a pena, sair e concretizar o novo sonho: criar aves para reorganizar a vida. A criação de aves é uma das actividades de reabilitação que aprendeu na cadeia.

Crimes causados por amor, ciúme ou possessão

Afinal, até onde vai o amor e onde começa a obsessão? Quem ama é capaz de matar?

Válter Cuamba, psicólogo clínico esclarece que não há uma explicação lógica dos motivos que levam as pessoas a cometerem crimes passionais.

“É importante nós avaliarmos vários factores que podem estar por detrás deste acto ou comportamento impulsivo causado por paixão, um sentimento emocional, psicológico e subjectivo que um sujeito tem em relação à outra pessoa”.

O psicólogo explica que todos podem cometer um crime passional e avança comportamentos que podem representar perigo.

“Se o desejo da pessoa, a parte irracional do cérebro, não for suficientemente forte, o ego toma conta. Quando estas pessoas sofrem uma traição ou são humilhadas e não têm suporte familiar ou de um confidente, facilmente podem acabar cometendo um crime passional”, esclarece.

Parte dos sinais de alerta apontados por Cuamba incluem comportamentos característicos da possessão como “privação de algum bem, sucessivas discussões entre o casal, agressões verbais e físicas”.

“Quando o sujeito tem dificuldades de controlar os seus impulsos, seu comportamento face a esta pessoa, que ele supostamente adora, pode evidentemente cometer um crime passional”, conclui o psicólogo.

Fonte: O País