Comemora-se hoje o Dia dos Heróis Moçambicanos, efeméride que também assinala o aniversário do assassinato de Eduardo Mondlane, a 3 de Fevereiro de 1969. Durante anos, os serviços de inteligência dos Estados Unidos, a CIA, redigiram diversos documentos internos sobre a “insurgência nacionalista” em Moçambique e o fundador da Frelimo. Nos últimos 20 anos, vários desses textos deixaram finalmente de ser secretos. Eis o que diziam alguns deles.

Num dos documentos, datado de 1 de Julho de 1964, a CIA, os departamentos de Estado e da Defesa dos Estados Unidos, assim como a Agência de Segurança Nacional, fizeram uma análise onde estimam, para o curto-prazo, as probabilidades de sucesso dos movimentos nacionalistas em Moçambique e Angola.

“O principal movimento nacionalista em Moçambique é a Frelimo de Mondlane”, começa por salientar o texto, na secção que versa sobre o país. “O movimento ainda não avançou até ao ponto de conflito aberto, embora alguns raides e incursões no Norte, com base em Tanganica [actualmente, faz parte do território da Tanzânia], sejam prováveis por volta do próximo ano”.

Ainda segundo a análise feita pelos norte-americanos, “os serviços militar e de segurança portugueses aparentam ter o controlo da situação”, com “o movimento nacionalista moçambicano” a mostrar ser “mais importante em termos da política africana que uma ameaça física”.

No que respeita ao colonizador português, refere-se, ainda, que “apesar de alguns passos para liberalizar as políticas coloniais, os portugueses não tomaram, nem é provável que tomem, passos significativos em relação às pressões que lhes foram trazidas”, no sentido de dar a autodeterminação ou a independência aos seus territórios em África.

No fim, concluem que “Portugal pode ser capaz de preservar o seu actual controlo de Angola e Moçambique por muitos anos”.

Um líder nacionalista “educado nos Estados Unidos”

Curiosamente, três meses depois um boletim interno da CIA dá conta de um cenário diferente, relatando que as “autoridades portuguesas parecem estar preocupadas com as actividades nacionalistas no Norte de Moçambique”, quando mais não seja por causa de “sabotadores amadores que recentemente atacaram estradas e pontes perto da fronteira com Tanganica”.

No entanto, e no que respeitava a estas acções, a CIA frisa que o “actual terrorismo e sabotagem em Moçambique é provavelmente promovido por uma ala extremista da frente nacionalista de Moçambique, que pode estar a tentar ganhar apoio internacional” e, assim, ganhar vantagem em relação à principal organização nacionalista [a Frelimo], liderada por Eduardo Mondlane.

Aliás, o documento, com carimbo de 14 de Outubro, refere que Mondlane, “educado nos Estados Unidos, e que está de momento a visitar a Europa do Leste, reiterou recentemente que a sua organização não está pronta para começar verdadeiras acções militares”.

Mondlane pressionado para começar a atacar os portugueses

Eis que chegamos a meados de Dezembro do mesmo ano, altura que em a agência de serviços secretos de terras do Tio Sam fala já, num relatório especial dedicado ao assunto, sobre a chegada da campanha antiportuguesa em África a Moçambique. O movimento nacionalista ganhava asas.

relatório especial, com data do dia 18 e todo ele dedicado ao assunto, avisa, desde logo, que “uma ofensiva nacionalista africana de longo-prazo, contra a governação portuguesa em Moçambique, aparenta ter começado”. Contudo, adiantam que, naquele momento, “os nacionalistas estão mal equipados” para que possam ser um “sério desafio para os portugueses”, os quais “têm 21 mil tropas no país e estão determinados a manter o controlo”.

Mesmo assim, a CIA estava convicta que “o potencial de longo-prazo dos nacionalistas está a ser aumentado” devido à ajuda externa, nomeadamente “através de um aumento considerável do treino [militar], das armas e de fundos”, vindos de líderes africanos “radicais” e de países “comunistas”.

Tanzânia, Argélia, Egipto, China e União Soviética são apontados como os grandes auxiliares do principal grupo nacionalista, a Frelimo. “Limitado e ultraclandestino”, eis o raio X que é tirado ao movimento liderado por Mondlane, situação que se deveria à ainda reinante “apatia pública e ao medo da polícia portuguesa”.

O relatório relembra as declarações de Mondlane, em Julho desse ano, de que a Frelimo não estava preparada para uma luta militar, sem esperança de sucesso, contra as forças portuguesas, pelo que os raides no Norte do país que acabaram por acontecer nos meses seguintes dever-se-iam, conclui o texto, à pressão exercida sobre o líder, por “estados africanos radicais”, para acelerar a agenda revolucionária. Mas a decisão de Mondlane em autorizar os ataques também poderia dever-se à pressão exercida por outros grupos nacionalistas, em Moçambique, assim como a membros internos da Frelimo que desejavam uma “política mais militante”.

O problema de ser um homem do Sul de Moçambique

Destaque, já quase no fim do documento, para esta visão sobre o futuro do movimento nacionalista e do papel que Eduardo Mondlane poderia ocupar no seu seio. Basicamente, não lhes apontavam uma vida fácil:

“Apesar de os nacionalistas virem a ser capazes de continuar com as incursões em Moçambique, é improvável que venham a colocar em perigo a posição portuguesa num futuro previsível. Internamente, os nacionalistas aparentam estar pobremente organizados e divididos. Mondlane pode não ser um líder suficientemente radical ou dinâmico para [conseguir] controlar e canalizar as facções dentro da sua organização, além de que sofre por ser um sulista num grupo maioritariamente composto por moçambicanos do Norte.”

Ambições “irrealistas”?

Saltemos um ano, até 27 de Outubro de 1965, altura em foi dito, num memorando sobre os movimentos insurgentes que eclodiam um pouco por todo o globo, que o governo português tinha consolidado o seu controlo sobre o Norte de Moçambique, além de terem conseguido limitar as iniciativas dos “dissidentes” nacionalistas.

Deste modo, a declaração de Mondlane, no início do mesmo mês, de que a Frelimo (que operava a partir da Tanzânia) iria estabelecer um quartel-general em solo moçambicano logo que controlassem as províncias do Norte, era vista como “irrealista” pela CIA.

O tom e as palavras usadas acabam por mudar, novamente, no Verão seguinte, quando é lançado internamente, dentro da CIA, um documento (datado de 1 de Junho de 1966) que faz o perfil a vários sectores de Moçambique. O capítulo sobre a então situação de “subversão” frisa que “as forças da Frelimo têm vindo a mostrar uma crescente sofisticação organizacional”, ao mesmo tempo que se mostram mais hábeis nas suas acções e estão melhor armados. Contudo, a táctica que praticam é a de guerrilha, com os seus recursos a virem de fora do país.

E o que dizem os analistas dos serviços secretos sobre o seu líder? “Apesar de Mondlane ter sido educado nos Estados Unidos e ser um moderado, ele aceita ajuda de fontes de qualquer ideologia. Na prática, pode-se dizer que, na visão da CIA, Mondlane agia de forma pragmática.

Mondlane reforça a sua liderança dentro da Frelimo

15 de Agosto de 1968. Mais um boletim interno e outro capítulo sobre Moçambique. O que diz ele, desta vez?

“O principal grupo nacionalista de Moçambique, a Frelimo, superou, provavelmente, o mais recente desafio político à sua liderança, e abriu caminho a uma maior pressão de guerrilha contra os portugueses. Relatórios sobre o congresso da Frelimo  […] indicam que o executivo da Frelimo foi facilmente reeleito, e o seu relativamente moderado presidente, Eduardo Mondlane, confirmado [na liderança]. Desde Março [de 1968] que Mondlane tem estado sob fogo dos “rebeldes” da Frelimo sobre questões ideológicas, raciais e tribais.

No que respeita a acções militares, os norte-americanos estavam convictos que a “Frelimo irá agora, provavelmente, concentrar-se em operações de guerrilha”. Após quatro anos de “insurgência”, salientam, o início do ano tinha testemunhado o maior pico de actividades contra as forças de Portugal, tendo almejado expulsá-los dos quartéis militares e das vilas fortificadas mais isoladas.

À espera da “inevitabilidade histórica”

Passados nove meses após o assassinato de Mondlane, as notícias vindas num outro boletim interno falam de uma divisão interna dentro da Frelimo, com os membros do triunvirato que liderava o grupo a entrar em rota de colisão. Estamos a 7 de Novembro de 1969.

Quase dois anos depois, a 13 de Agosto de 1972, sai um relatório especial sobre Moçambique, onde se resume todos os avanços e reveses protagonizados pelos movimentos nacionalistas e as forças portuguesas nos últimos anos.

O líder da Frelimo, o principal grupo de luta contra a ocupação, era agora Samora Machel, e o legado criado por Mondlane parecia manter-se, pese embora as enormes dificuldades.

No texto, lê-se que: “Durante quase sete anos, Portugal tem estado a lutar contra uma insurgência na sua província africana de Moçambique. Apesar de as forças portuguesas terem exibido um surpreendente nível de agressividade no último ano, ao levarem a luta para o território da guerrilha, parece que Lisboa não é capaz de ganhar uma vitória militar convencional a menos que prive as guerrilhas do apoio externo, providenciado pelos estados africanos negros, especialmente a Tanzânia e a Zâmbia”.

Em jeito de conclusão, a CIA afiança que a “insurgência” veio mesmo para ficar, e assim se manterá durante muito tempo. Contudo, “nem os portugueses nem a Frelimo parecem capazes de alcançar a vitória militar no futuro próximo”.

Acima de tudo, a estratégia da Frelimo está pensada para o longo-termo, “procurando evitar grandes confrontos e aguentar-se”, ao mesmo tempo que procura construir uma legitimidade para assumir-se como o único movimento nacionalista em Moçambique e, consequentemente, herdar o governo do país, “quando Portugal, devido à necessidade económica, à pressão internacional e à inevitabilidade histórica for forçada a desistir das suas colónias africanas”.

Fonte: SapoNotícias MZ