XI-CAU CAU

O Estado da Nação no desporto, não é firme. Há muito oportunismo no dirigismo e um quase nulo trabalho de base. As infra-estruturas informais estão “em vias de extinção” e as formais têm uma percentagem de utilização longe do satisfatório.

Não há muito a inventar. Talvez a inventariar e modernizar. Se admitirmos que já descemos ao fundo do poço – os “rankings” não mentem – só nos resta encetarmos o caminho no sentido inverso, de forma estruturada e paciente. Ao contrário do que as tendências indicam.

Algumas opiniões em jeito de balanço do fim do ano!

  1. Porque não é exequível demolir as construções que de uma ou de outra forma invadiram os espaços onde as nossas crianças e jovens faziam iniciação e confraternização desportiva, tendo daí saído estrelas que levaram o nome de Moçambique além-fronteiras, há que fazer um levantamento sério e exaustivo para se SALVAR o que ainda existe, nos clubes ou fora deles, nas escolas ou nos sítios ocupados pelos vendedores informais, antecipando-nos a males maiores;
  2. O estatuto e lugar da Educação Física e Desportos nas escolas têm que ser recuperados no espírito e na letra. Aquela disciplina outrora obrigatória, é hoje na maioria dos estabelecimentos de ensino facultativa, tempo de repouso ou recuperação de outras matérias. Impõe-se uma conjugação de sinergias entre os Ministérios da Juventude e Desportos, da Saúde e da Educação, para que experts na matéria tracem programas realistas e que tragam de volta à juventude o gosto pelos movimentos que só as brincadeiras e o desporto de iniciação conferem. Estamos a referir-nos àquele que é o mais eficaz preventivo para a obesidade, diabetes e certas doenças, que em condições normais começam a “visitar” o ser humano a partir do meio século de vida e não em tenra idade como está a acontecer no nosso país;
  3. Repensar o nosso desporto, significa abandonar alguma “macaquice de imitação” do que se faz lá fora. Nem tudo o que dá certo nos países desenvolvidos é aplicável, com propriedade, em Moçambique. E qual será uma das boas formas de separar o “trigo do joio”? Passar o “slogan” de investir na formação em realidade. A prioridade, nesta altura, não é pensar nas grandes competições como oportunidade para passear a nossa mediocridade, mas visualizar acções bem alicerçadas e que nos tragam sucessos a médio prazo e com raízes sólidas. Estamos cansados dos habituais balanços sempre positivos, mau grado a ocupação sistemática dos últimos lugares;
  4. Há que definir modalidades prioritárias e com critérios muito claros. Factores a ter em conta: a nossa história desportiva e cultural, o nosso clima, altitude, factores genéticos e outros, de forma a podermos brilhar na Alta Competição a partir da formação e acompanhamento dos talentos que sabemos possuir, por sinal com provas dadas;
  5. O desporto deve ser um farol para a sociedade, pelos valores que transporta na sua génese e não uma “vítima”. A corrupção, que resulta no “servir-se pouco servindo”, não deve encontrar terreno fértil. Diz-se que mais de 80% dos que se envolvem no dirigismo desportivo, fazem-no guiados por um dos três objectivos: sobrevivência financeira, viagens e/ou visibilidade. É por isso que a célula, o bairro ou o distrito, onde abundam espaços, talento virgem e disponibilidade, estão normalmente fora da rota das modalidades, dos orçamentos e das competições;
  6. Espírito de campeão, capacidade de sofrimento até aos limites, são alguns dos segredos que permitiram a Lurdes Mutola trazer para o país glórias até então impensáveis. Chama-se a isso, alma de vencedor. O exemplo da nossa Menina de Ouro deve ajudar a transformar a nossa realidade, que actualmente se contenta e se alegra com pequenos e intermitentes sucessos. A sociedade e o desporto têm que ser ganhadores, primeiro em África e depois no Mundo.
  7. Finalmente, as regras da pirâmide que está invertida. Salários “gordos” e viagens para quem trabalha com os seniores, migalhas para os que estão na iniciação; temos um Ministério apetrechado no que toca a quadros e instalações; seguem-se Federações com desníveis consoante a visibilidade das modalidades; Associações que só funcionam quando soa a campainha das grandes provas. Na base da pirâmide estão os distritos, onde quase tudo funciona… ao “Deus-dará”!

    Fonte: O País