XI-CAU CAU

Um ex-árbitro veio a público há dias, fazer denúncias graves sobre a corrupção na nossa arbitragem. Explicou a forma primária como se pratica, através do “envelope”. Nada que as autoridades e os desportistas em geral não soubessem. Convivemos com ela – a corrupção – e vamo-nos auto-enganando exigindo que os outros denunciem o corrupto e o corruptor. Entretanto, vamos “assobiando para o lado”.

Que prejuízos para o desporto-rei? Não será esta uma das razões do abulicismo que impera? Então quem (e como) se põe o “guizo ao gato”?

Ontem

– Arnaldo Salvado (pai), nos seus tempos áureos, declinava receber qualquer subsídio da arbitragem, quando se tratasse de ajuizar partidas dos escalões etários de formação;

– Os juízes, no pós-independência, eram instruídos a abrirem uma conta num dos bancos, os prémios de jogo eram lá depositados no final do mês e todos possuíam os seus empregos;

– Os membros da CNAF eram escolhidos no seio das personalidades da praça, entre dirigentes e ex-árbitros de reconhecida idoneidade.

Hoje

– Há árbitros que dependem financeiramente dos jogos que apitam durante o mês;

– Ex-juízes que já demonstraram “habilidades” com o apito, agora enquadram ex-colegas;

– Chega-se ao cúmulo da exigência do pagamento do prémio de jogo ao intervalo. Receber no final dos 90 minutos, é já uma grande cedência.

Arbitrar dá pouco prestígio mas… ajuda a sobreviver!

Na sociedade mercantilista em que vivemos, é racional exigir-se que um cidadão que luta para sobreviver, tendo como sua principal – ou única – fonte de rendimento os jogos que dirige, virar as costas a milhões quando lhe pagam tostões?

Se em condições normais um árbitro amealha cinco mil meticais/mês ao dirigir 12 jogos – média de 2 por semana – como resistir a uma tentadora proposta de inventar um penálti e daí receber um bolo de 50 mil, que corresponde a 10 meses de trabalho?

Pontos de partida e de chegada

A obrigatoriedade de possuir um emprego para se ser juiz de algo tão importante como é o esforço dos jogadores, trabalho do treinador, empenho dos dirigentes e paixão da massa associativa, é um ponto de partida.

É também necessário ser-se apaixonado pela causa, tendo dentro de si o “bichinho” da lealdade que é apanágio no desporto. Quem abraça a causa da arbitragem só e só pelo que poderá amealhar, nunca se irá contentar com qualquer prémio de jogo, por mais alto que ele seja.

O mesmo para os dirigentes que se candidatam a dirigir os árbitros. Se o “mote” é o poder, as viagens e os “per diems”, dificilmente poderão combater algo que faz parte do seu ADN e motivação.

Estas são premissas de base. Outras têm a ver com o comportamento moral e cívico dos homens do apito fora dos campos, do seu dia-a-dia na sociedade. Ser juiz, seja do que for, transporta sempre uma responsabilidade acrescida.

Assim sendo, só a partir daí é que faz sentido o ditado: “errar, é humano”. De contrário, pela traição à sua missão e consciência, errar é… desumano.

Fonte: O País